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A educação e a política

Belém, Janeiro de 2019

Aos portugueses, é a falta de educação, em sentido restrito e em sentido lato, que dita os seus destinos. Por sentido restrito entendo os bons modos e uma certa etiqueta social que não incomode o outro, não invada o seu espaço vital e de conforto, seja este um espaço físico ou um ambiente acústico. São exemplos desta falta de chá, as televisões permanentemente acesas e com som alto em programas de grande audiência, omnipresentes em cafés, salas de espera de hospitais e nas salas de estar da maioria da população. O conversar alto em público ou ao telemóvel, obrigando os outros a ouvir a conversa, são exemplos de uma falha de saber estar no espaço público.

A falta de educação em sentido lato, tem expressão na baixa escolaridade dos portugueses, no seu desinteresse pela ciência, pela política e uma quase inexistente censura social à corrupção e banditismo de classe alta.

Sem querer saber de distinções ideológicas entre esquerda e direita e aceitando tacitamente (acriticamente) a globalização, o mercado auto-regulado, o produtivismo e o consumismo, a que todos parecem aspirar, somos, em termos ideológicos, uma espécie de “Maria vai com as outras”. E nisto, as direitas e as esquerdas diferem pouco: todos querem produzir mais, consumir mais, trabalhar mais, como se não houvessem limites na biosfera. O PIB deve crescer, a economia deve crescer, a população deve crescer, o consumo deve crescer. Poucos ainda perceberam que este é um caminho insustentável, em direção ao abismo e ao colapso. Quando cientistas, economista pouco ideológicos e pensadores em geral afirmam que não é possível crescer continuamente num planeta de recursos limitados, apetece fazer aquela pergunta irritante: “qual foi a parte da frase que não percebeu”?

A falta de educação não se expressa apenas nas baixas qualificações académicas. Expressa-se também na dificuldade que o cidadão comum (seja lá o que isso for) tem de pensar de modo crítico a sua vida, o seu grupo, a humanidade ou até a animalidade. O nosso sistema educativo é ainda orientado para a reprodução social do produtivismo resultante das duas revoluções industriais do passado. Muito poucos parecem perceber que o futuro ao virar da esquina trará mais desigualdades, desemprego em massa e cerca de dois terços da população tornada irrelevante por falta de qualificações, pelo uso dos algoritmos, da robótica industrial e do automatismo dos serviços. É a falta de educação, para um pensamento crítico e filosófico, que nos impede de notar que nem todas as ideologias morreram, tendo sobrevivido a mais predadora de recursos naturais e de seres humanos – a economia-liberal-desregulada-globalizada.

Quando a educação e formação se vira para as empresas, através da aprendizagem em economia, finanças e gestão dos mercados, promove-se a competição em vez da colaboração. Entretanto a educação básica, a saúde ou a segurança social, parecem assentar mais nas características cooperativas da espécie humana, enquanto uma economia “competitiva” parece apelar ao lado mais egoísta, individualista e interesseiro dos cidadãos tornados consumidores. “Temos que ser mais competitivos”, dizem políticos e economistas. Não seria mais razoável e sustentável sermos mais cooperativos? Reduzir os fossos educacionais, reduzir as desigualdades económicas, promover a educação cultural que reduza a discriminação das mulheres, reduza a violência doméstica, reduza o trabalho infantil, reduza a exploração dos trabalhadores nas fábricas do oriente ou na grande distribuição do ocidente, com horas de trabalho a mais e pagamento a menos, em ambientes hostis e poluídos. A economia, apenas competitiva, gera mais desigualdades. Contribui para criar países desenvolvidos que só o são graças a outros que se mantêm subdesenvolvidos, cedendo os seus recursos naturais e a sua mão-de-obra barata e por fim, como sumidouros do lixo resultante do hiperconsumo.

A educação deveria nos levar a refletir sobre a caducidade e limites da ideologia comunista, capitalista-liberal, fascista ou nacionalista. Deveria nos ajudar a pensar em modos de promover o desenvolvimento humano, não o crescimento económico contínuo assente num consumo sempre crescente.

Por reconhecidamente terem um bom sistema educativo, os países nórdicos como a Suécia ou a Finlândia, passaram em poucas décadas de uma sociedade rural atrasada para uma sociedade de elevado desenvolvimento humano, com índices elevados de literacia digital e tecnológica, menores desigualdades sociais e sistema de saúde universal. A social-democracia nórdica é um regime de centro-esquerda assente no equilíbrio entre serviços estatais com regalias sociais alargadas, bons sistemas de saúde e educação gratuita para todos, onde 98% dos estudantes estão no ensino estatal, e uma economia de mercado regulada que limita os desvarios da engenharia financeira e do dinheiro virtual.

Como facilmente constatamos, não é esse o sentido que a social-democracia assume em Portugal. O PSD, Partido Social-Democrata é uma amálgama de democratas-cristãos, conservadores, saudosistas envergonhados ou liberais defensores do mercado livre à solta. Do ponto de vista do pensamento ideológico, a social-democracia esteve mais perto com Mário Soares, muito amigo de Olof Palme, primeiro-ministro da Suécia entre 1969 e 1976 e de novo entre 1982 e 1986, ano em que foi assassinado. Olof Palme, membro do partido social-democrata sueco, conseguiu consolidar o delicado equilíbrio entre serviços básicos estatais e economia de mercado.

Portugal parece ainda reger-se entre polos de ideologias nefastas ou ultrapassadas. Tomemos como exemplo o comunismo nas suas vertentes soviética, estalinista, maoista, africana ou sul-americana. O Partido Comunista Português mantem-se um dinossauro ideológico incapaz de criticar a opressão esmagadora do regime norte-coreano.

A outra ideologia, que embora parecendo mais moderna, eficaz e até universalmente desejável, consiste no liberalismo económico assente em mercados totalmente desregulados. Será oportuno lembrar que foram os mercados desregulados e não os estados ou ideologias racistas que criaram o mercado de escravos africanos entre os séculos XVI e XIX, para alimentar interesses privados de uma elite detentora de plantações no Novo Mundo, ou seja, na América.

Mas então, se a esquerda é tão má como a direita, o que devemos escolher?

A vantagem das ideologias pronto-a-vestir do século XX, era a sua atratividade simplista. Facilmente éramos atraídos para a esquerda ou direita do espectro político. Mas essa facilidade de escolha ideológica acabou no mundo ocidental, por choque com a realidade. Portugal parece um reduto arqueológico de esquerdas e direitas, mais diferenciadas pela distribuição desigual da riqueza do que por uma opção ideológica consciente.

Com as ainda distantes eleições legislativas de Outubro (escrevo em Janeiro de 2019), tornadas mais próximas pela azáfama da opinião publicada, vemos alinharem-se os partidos, ainda que fragmentados, na clássica dicotomia esquerda-direita.

O Partido Socialista que nunca conseguiu actualizar a noção soarista de social-democracia (talvez nem Mário Soares o tenha conseguido), pouco se distingue do PSD nas grandes opções económicas e sociais. O PSD é na verdade um saco de gatos, com maior agressividade interna do que a fazer oposição. Por outro lado, não sou rico, nem elitista, nem neo-liberal, nem cristão ou conservador, para perceber o que na verdade é o CDS.

No Bloco de Esquerda, revejo-me frequentemente nas declarações de Mariana Mortágua sobre a vertigem do resgate público a bancos privados e a perversidade e incoerência formal dos mercados livres que escondem os seus lucros nos paraísos fiscais, junto com traficantes e mafiosos. Revejo-me nas críticas ao esvaziamento dos serviços públicos para os desvalorizar e vender aos privados que, no caso da EDP, significou privatizar vendendo ao capital gerado na totalitarista, neo-comunista e neo-capitalista, China.

Enfim, quero tentar aliviar a angústia do leitor, afirmando que a política, as ideologias e o ser humano são antes de mais, caracterizados pela ambiguidade. Sim, seria tão mais fácil escolher entre bons e maus, comunistas, fascistas e capitalistas e até, sociais-democratas. Se a opção a tomar parece mais fácil nos países nórdicos, esta opção é muito mais difícil no caos burocrático, no compadrio e corrupção instituídos e na falta de transparência das instituições portuguesas, públicas ou privadas. A atração sexy do BE pára quando, mais uma vez, pedem mais produção, mais crescimento económico continuado, o que alguém já descreveu como um carro em aceleração contra um muro.

O PAN tem a minha simpatia, apesar de sentir por vezes alguma vergonha alheia quando defendem acerrimamente o cão e o gato. Nada contra a defesa do cão e do gato que melhor seria serem deixados em paz, ou seja, sem correntes, sem confinamentos a apartamentos ou castrados para amansarem e não marcarem território. Numa pós-graduação que fiz em bioética, aprendi que o melhor que podemos fazer pelos animais é, como já referi, deixá-los em paz. O PAN, com um único deputado, tem a maior taxa de eficácia no parlamento. Merece aumentar a sua representação. No entanto, aguardo com expectativa o dia em que este partido ataque de frente, sem vacilar, a indústria de produção animal que mantem em sofrimento milhões de animais de pecuária e causa grandes malefícios ambientais. Animais sensíveis e sociais que não podem de todo expressar os seus instintos e comportamentos da espécie. Na prática, estamos a “criar inocentes para alimentar pecadores”.

Por fim, movimentos e partidos como a Iniciativa Liberal são para mim tão aberrantes como maoistas, estalinistas, nacionalistas ou neo-qualquer-coisa.

No futuro próximo, os pobres não serão explorados, serão insignificantes. Sem lugar social e muitos sem lugar físico, serão atirados para a condição de refugiados económicos, de refugiados de guerra ou das alterações climáticas. Tentarei mais tarde explorar melhor algumas das ideias contidas neste texto.

O meu propósito último é tentar explicar processos complexos de modo simples. É provável que falhe redondamente, não tendo arte para ser humorista, nem bens para ser elitista, nem paciência para ser erudito.

Luís Escudeiro*

*o autor escreve segundo o acordo ortográfico, exceto quando isso é muito parvo.